Apesar da clara vontade de todos os presentes na roda de abrir mão de suas falas para ouvir o som do funk, não era possível fazer isso. E não era possível porque a roda de funk é uma legítima manifestação política que hoje só existe como manifestação. Caso não fosse solicitada sua autorização dessa forma – resultado de uma conquista do povo brasileiro inscrita em sua constituição – a roda sequer aconteceria.
Não aconteceria porque seria considerada um baile funk, e hoje, segundo a lei estadual 5.265 de autoria do ex-deputado e ex-chefe de polícia Álvaro Lins, para realizá-lo é necessário pedir autorização com 30 dias de antecedência para a polícia local, ter comprovante de tratamento acústico, ter um banheiro químico para cada 50 pessoas, acompanhamento de câmeras, informar ainda a expectativa de público, o número de ingressos colocados à disposição, nome do responsável pelo evento, área para estacionamento e previsão de horário de início e término do baile...ufa! Enfim, para bons entendedores: só pode ser feito por grandes equipes de som, grandes casas de shows e para um público minimamente capitalizado. Nenhum problema com a “democratização” do público do funk, mas e quem o criou, não tem sequer direito a ouví-lo, cantá-lo e dançá-lo? Infelizmente essa já é a realidade no Rio de Janeiro há mais de um ano.]
Durante todo esse semestre, além disso, assistimos às grandes propagandas da "favela modelo" Santa Marta, da sua unidade pacificadora, do novo gênero de seus comandantes. E encerrávamos a rotina de um semestre indo lá, semanalmente, para ouvir as arbitrariedades ocultadas que vinham sendo cometidas pela antiga polícia com suas novas roupagens. Depois de proibir todas as manifestações culturais do dia-a-dia e de tratar a comunidade através da vida sob cerco (ou melhor, vida entre muros), a polícia da "paz" ainda pretendia proibir uma manifestação político-cultural, a liberdade de expressão. Talvez não fosse demais para aqueles que impedem a liberdade de ir e vir, impedir só “mais uma coisinha”, não é mesmo?
E não foi. A queda de braço para realização da roda durou semanas, ganhou visibilidade e no final, segundo a PM, não passou de um pequeno “mal entendido”...
No entanto, a roda de funk do Santa Marta entendeu bem. E veio para dizer, veio para soltar a voz da garganta, arrancar lágrimas teatralizadas da vida real e mostrar que, para paz, é preciso, antes de tudo, voz. Porque se alguma parte não entendeu o que estava ali sendo feito, não era a parte que estava em roda, mas talvez a que estivesse em fila e por isso não conseguia ver os olhos de todos. Mas ninguém saiu desentendido, não foi à toa o silêncio posterior: é a forma como se vem tratando, faz oitos meses, de tentar “calar os gemidos que existem nessa cidade”.
Mas nossa parte sabia muito bem que, depois todo esse tempo, havia ali uma grande conquista, que não passava de um direito – mas para provar que era como todos os outros – deveria ser arrancado, pois nunca foram dados de graça. Uma vitória sobre o silêncio, a arma da opressão. Uma vitória sobre a idéia de que o medo e a cabeça baixa sejam a única alternativa para a pobreza. Paz sem voz é medo. E o medo é a verdadeira voz daqueles que querem tratar toda a vida social como assunto de segurança.
A Apafunk, a Cia Marginal, o Visão da Favela Brasil, o Lutarmada e todos que alí estavam comprovaram que, como ouvi uma vez dizer um MC: nós não podemos ser a geração que vai engolir calada a criminalização da pobreza e da sua cultura.
Não, definitivamente.
E nossas vozes em ritmo de funk, de teatro, de hip-hop e de intervenções vieram juntas para mostrar “qual a paz que queremos conservar para tentar ser feliz”.
Créditos Texto: * Isabel Mansur (Justiça Global e Militante de direitos humanos no RJ.)
E por falar em Santa Marta....
O batidão de volta ao Santa Marta
Foi uma festa bonita. Nada menos que 500 pessoas, muitas crianças, curtiram em paz a Roda de Funk no Santa Marta, favela da zona sul carioca, no domingo, 26 de julho. E foi também uma festa importante pelo simbolismo, já que a polícia militar havia proibido, arbitrariamente, qualquer manifestação político cultural desde que ocupou o morro, em fins do ano passado. A corporação recuou após a mudança no comando do 2º Batalhão de Polícia, responsável pela região, e também pela persistência dos funkeiros.
Por isso, o dia 26 de julho vai ficar marcado na história da favela – e do funk. O cenário é a Praça do Cantão, no pé esquerdo do morro. Cercada por escadas e bares por todos os lados, ali também estão o salão do Cícero (unissex), a casa de costura da Rose e, no lado oposto à subida principal, o “pastel feito na hora”, que divide espaço na parede de uma casa com o anúncio do “bolo de chocolate”.
Entre os funkeiros que vieram para a roda, chamam a atenção os que vestem as camisas com inscrições que resgatam o chamado funk de raiz. “Eu só quero é ser feliz”, diz uma delas.
Por volta das 17h, um grupo de teatro da Maré escancarou a desigualdade social. Em seguida foi a vez da roda de denúncias, ocasião em que qualquer um podia pegar o microfone, inclusive para se manifestar contra a violência policial – que continua sem controle no Rio –, o que foi feito mesmo diante da presença dos PMs, que acompanharam de perto todo o evento.
Ninguém segura o batidão
Finalmente, com o cair da noite, o batidão se impôs. E aí não houve quem ficasse parado, fosse na praça ou nas casas ao redor. A primeira música ressaltou a força da favela e do favelado, viés que tem acompanhado as apresentações da Apafunk, a Associação de Profissionais e Amigos do Funk. Nada de xingamentos, nada de apologia ao crime. A regra aqui é a crítica sociopolítica, que busca a transformação da sociedade.
E o ápice da noite surgiu de uma adversidade. A energia elétrica caiu, mas em vez de depor o microfone, o MC da vez, trajando um lenço palestino, continuou cantando a plenos pulmões, como se o mundo inteiro pudesse ouvi-lo. Na sequencia, ainda sem energia, os MCs puxaram o “Rap da Felicidade”. Na garganta. Na raça. O que se viu foi uma catarse coletiva. Todos na praça cantaram juntos e vibraram com a letra, aumentando o volume no trecho: “O povo tem a força só precisa descobrir; se lá eles não fazem nada faremos tudo daqui”.
“Alcançamos todos os nossos objetivos”, declarou um rouco MC Leonardo, presidente da Apafunk. “Unimos diversos representantes de movimentos sociais com estudantes e professores de vários setores de ensino. Além disso, informamos a todos daquela localidade o que estamos fazendo para revogar a leia que nos discrimina”, comemorou. A Lei Estadual 5.265, de julho do ano passado, praticamente inviabiliza a realização de bailes funk nas favelas.
Outro que destacou a importância da Roda foi Itamar Silva, jornalista e coordenador do Ibase que vive no Santa Marta e é considerado umas das lideranças populares mais importantes da cidade. “Num momento em que o Santa Marta é apresentado como modelo de controle social, o funk apresenta uma dimensão libertária e provoca o Estado a repensar o eixo da criminalização”.
Na mídia, a Roda não existiu
As corporações de mídia foram alvo de críticas do presidente da Apafunk. Duas semanas antes, os meios de comunicação de massa haviam responsabilizado o funk pela morte de uma moradora do Morro dos Macacos, durante uma ação do Bope. “Chegaram, fizeram umas perguntas, anotaram na caderneta e saíram de fininho. Nem publicaram o que eu falei em favor do funk e contra a Lei 5.265”, protestou MC Leonardo.
Nos dias seguintes, nada foi publicado sobre a Roda de Funk. “Pudemos mais uma vez testemunhar que a paz não interessa à grande mídia, pois foram embora quando viram que a polícia não estava nem aí pro que a gente estava fazendo”, disse o presidente da Apafunk.
MC Leonardo também denunciou mais uma distorção midiática: “Há quinze dias essa mídia publicou que nós da Apafunk iríamos entrar na Justiça para realizar bailes na favela, o que não é verdade. Além disso, não me deixou em paz perguntando o que eu iria fazer se a polícia nos proibisse de realizar Rodas de Funk”.
Apesar da retumbante omissão da mídia massiva, que mais uma vez exacerba seu descompasso com a realidade, a vitória do movimento funkeiro foi realçada pela elevada participação popular. Quando se diz que 500 pessoas estiveram presentes na Roda do Santa Marta, é bom explicar que isto corresponde a 5% da população total da favela – em termos de país, seria como mobilizar a considerável massa de 9,5 milhões de pessoas.
Créditos: Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Fotos Santa Marta

Cia. Marginal de Teatro
Itamar Silva

Rapper Fiel e MC Leonardo
Priscila e Maria
Gaiato
Cia. Marginal de Teatro



Cia. Marginal de Teatro
DJ Marcelo Negão
DJ Marcelo Negão e MC Alex
MC Teto
MC Teto e a Judoca Tuane
Rapper's Fiel, Zeu e Delírio Black
MC's Liano e Pingo e o Rapper Delírio Black

MC's Teto e Tuzinho


MC's Pingo e Liano


MC's Lasca e Tuzinho
Gaiato, Delírio Black, MC Leonardo, Rapper Fiel, Mano Zeu e Guilherme Pimentel
PRO RAP RUA" MC's Rozendo e Marcelo




Deley de Acari Poeta

Priscila, Dani e Delírio Black
Grafiteiro Gaiato
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=g0N5rfSgg4M
Créditos: Rapper Fiel
Créditos Fotos: DJ Marcelo Negão, MC Teto e Maria
Fotos: Santa Marta










Vicent Rosenblat
Diplomado da Escola Nacional Superior das belas Artes de Paris (ENSBA) em 2001. Vincent Rosenblatt está radicado no Rio de Janeiro desde 2002. O seu trabalho em progresso « Rio Baile Funk » foi exibido no Instituto Oi Futuro (Rio de Janeiro) na Kontrast Gallery (Stockholm) em 2006 e no Teatro Nacional de Brasília no âmbito do festival FotoArte festival 2007.
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Créditos Fotos: Vincent Rosenblatt/Agencia Olhares
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